Uma semente a poucos centímetros do subsolo pronta para dar seu rebento, percebeu vestígios de maus tratos ao reino vegetal. Traumatizada com aqueles sons agressivos de motosserras e máquinas ficou com medo de aflorar-se. Mas ela precisava encontrar uma alternativa para dar continuidade à sua espécie fosse aonde fosse. Assim sendo, resolveu seguir o caminho do lado oposto. Mas aí sabia que sua jornada seria muito mais longa e cansativa. Posicionando-se de ponta cabeça começou o esforço para desvendar o novo rumo. Porém, de imediato percebeu que precisaria crescer muito para sair em algum lugar e com isso seu tronco poderia ficar tão fino a ponto de romper-se antes de atingir algum destino. Muito pensativa achou uma estratégia: arrancar-se com tudo, inclusive com a película da semente que ainda se agarrava em seu miolo. Com muito esforço, sem deixar rastro e sem a mínima ideia do que encontraria nessa aventura foi se adentrando. Com determinação e flexibilidade ia desbravando o desconhecido até que se deparou com a dureza de uma pedra. Vendo que era impossível atravessá-la, contornou-a e assim livrou-se do obstáculo. Ficou muito feliz pela solução encontrada e com mais garra se direcionava nas profundezas do subsolo. Mas como sabemos que debaixo da terra existem muitos minérios como pepitas de ouro, alumínio, chumbo, titânio, manganês etc, etc, às vezes se deparava com cheiros desagradáveis e precisava aumentar a velocidade para não se asfixiar. Mas essa bagagem ia fazendo parte de sua consistência e a deixava mais preparada para os afrontes. Sua jornada estava sendo tão longa que às vezes precisava dar uma paradinha. Nesse intervalo, enquanto retomava o fôlego, absorvia com maior intensidade os componentes do subsolo como fosse um recarregar de baterias. Quando imersa há quilômetros nas entranhas que se infiltrava, num belo dia percebeu mudanças nas camadas que ia perfurando. E assim o que estava num estado pastoso começa a fluir em forma líquida ainda que um pouco espessa e de uma coloração escura. Nessas condições dá uma arrancada audaciosa e tudo se descortina. Onde será que ela estava chegando? Pois é isso mesmo que vocês estão pensando: num aquífero parecendo um mar d’água. Como seguia com a cabeça para baixo, voltou-se ao posicionamento normal e depara-se com um mundo mágico a perder-se de vista. Ali havia peixinhos coloridos que se entrelaçavam num manejo festivo; pequenas plantas que se aglomeravam formando tapetes flutuantes que pouco se moviam. Além disso, bolhas d’água se formavam e  em seguida estouravam. Era o efeito da respiração de tantas vidas ali existentes. Essa plantinha ficou tão encantada com aquele habitat que quis instalar-se por ali mesmo. Adequando-se com o que tinha para sobreviver, foi adquirindo outras imunidades. Sentindo-se cada vez mais forte foi se direcionando para as margens com a intenção de fixar suas raízes, pois era o espaço mais parecido com o de sua origem. Em pouco tempo lá estava cheia de vida e muito segura que ali alcançaria longevidade. No entanto, foi ganhando experiências e percebeu que poderia ser muito mais audaciosa. Com raízes bem grossas presas num emaranhado da consistência tanto do reino vegetal como do reino mineral e até pedaços de fosseis do reino animal, teve a convicção que poderia refazer o caminho. Desta vez seria de cabeça erguida, sem nada ser rompido. Iria crescer sem desconectar de suas bases. Ficou por um tempo se preparando e planejando como seria esse retorno, visto que já tinha adquirido uma bagagem muito maior.
            E agora lá vem ela com toda sua magnitude.  A viagem está sendo mais lenta porque alguns dos obstáculos estão sendo removidos, outros de grande porte desviados e os de menos proporções  absorvidos. Está crescendo de uma maneira exorbitante e vem para ficar. Ventos não lhe abalarão, pois sua base está fixada em crostas que levaram anos para se sedimentar. Sendo assim os vento serão como uma brisa, pois nem um tornado balançará suas estruturas.  Motosserras ficarão banguelas se lhe desafiarem! Estiagem não lhe aniquilarão, pois suas raízes têm muitas fontes para assegurarem seu sustento. E caso seja atingida por alguns objetos despencado do espaço, o impacto será tão forte que vão virar estilhaços e cairão fragmentados a ponto de não provocarem grandes danos. E quem vai ganhar com isso? Todos, pois um gigante tanto vem para proteger como vem para fazer tremer.


 
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Código do texto: 823b7d19abfc9dbc540989b6390f4daf                  Enviado por: Arai Santos em 04/04/2018

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Sobre a autora
Arai Santos
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