Mosca Grotesca

 
 Ela se sentou sobre minha testa. Varejeira e errante, como que se minha carne estivesse morta. Eu não estava morto. Estava em meu terceiro copo de rum, mas estava consciente, inerte em minha cabulosidade.
 Senti quando depositou em meu olho esquerdo suas ovas, mesmo assim eu não a impedi. Bebi o quarto copo e adormeci, completamente anestesiado.
 Acordei com o olho inchado, borbulhando, como que se quisesse eclodir. Peguei o resto da garrafa de rum e joguei em minha cara, esperançoso em desinfetar o inchaço. Senti a carne grossa latejar em desespero. Gritei, me olhando no espelho. Estava com uma enorme bola roxa que latejava, me causando leve dor e grande incomodo.
 Senti um zumbido em meu quarto. Olhei estagnado com meu olho bom e a vi, posar por sobre a mesa da cozinha. Peguei o meu chinelo e não pensei duas vezes, a ataquei impiedoso, esmagando aquele pequeno grotesco com o solado de borracha.
 Contemplei a mosca varejeira esmagada, com seu líquido amarelado e grosso espichado na sola do meu chinelo. Eu ri. Ri e senti uma lagrima de sangue escorrer de meu olho inchado. Não. Não era lagrima. O sangue era meio amarelado, parecia estar fundido com pus grosso.
 Me desesperei, apertei o ferimento e o pus grosso espichou no espelho.
Senti o mau cheiro insuportável daquele liquido, o olho estava menos inchado, parecia uma bola levemente murcha, e o que tinha lá dentro começou a se agitar ainda mais. Talvez fosse um verme. Não. Talvez fossem inúmeros vermes!
 Tremi em minha desgraça! Espremi a bolota, mas dela nada conseguia expelir. O desespero só aumentava... Gritei de pavor e medo, tremulo em minha nefasta condição. Olhei para o chinelo que condenou o verme que me amaldiçoou e pisei irado sobre ele, inconformado com o acontecido.
 O olho borbulhou e enfim senti grande dor. Olhei estupefato para o espelho lambuzado e vi. Eu vi o inchaço aumentar. Vi o relevo dos vermes em meu olho! Andavam pelo inchaço, devorando minha carne viva, tentando se espalhar pelo meu rosto.
 O medo virou ódio e não pensei duas vezes... Peguei a pequena lamina de barbear e dilacerei o inchaço, sentindo o rasgo na bolota arder, como se meu rosto estivesse em chamas.
 Gritei e vomitei na pia, enquanto caiam sobre o vomito os vermes graúdos, misturados também ao pus e ao sangue grosso.
 Enquanto os via se mecherem meio ao liquido, senti minha barriga latejar... Assim como minhas costas e minhas pernas. A aflição me acometeu ao imaginar aquelas criaturinhas grotescas andando pelo meu corpo... Talvez fosse só má impressão.
 Gritei por ajuda e vi meu apartamento ser invadido pelos vizinhos que acompanhavam minha aflição.
 Desmaiei. Desmaiei de vergonha e medo, graças à condição que me encontrava.
 Acordei em uma cama de hospital, com o olho esquerdo escancarado graças a um aparelho metálico. Estava com o corpo anestesiado, nem gritar conseguia. Abri com dificuldade meu olho bom e vi. Vi uma pinça puxando um verme graúdo de dentro de meu olho, enquanto o medico tentava acalmar as enfermeiras bestificadas com minha condição. Uma delas segurava tremula um vaso de vidro que mais parecia um copo robusto, dentro dele, dezenas de vermes, todos arrancados de meu olho.
 Novamente fiquei desacordado, e quando despertei, senti meu esquerdo com um grosso curativo.
 O medico veio e me contou. Contou da minha perda de visão. Contou também que fatalmente, dois dos vermes conseguiram adentrar em minha cabeça.
 Eu tremi. Tremi de medo e pena de mim mesmo... Que condição nefasta era aquela? Pobre de mim! Estava condenado! Condenado e fadado a servir de alimento aos vermes! Meu cérebro latejava, servindo de morada para aqueles imundos!
 Fui de taxi para meu apartamento, e durante o trajeto, me vi desacordado, sentindo a baba escorrer pelo canto da minha boca... Eu estava meio abobado, graças aos insanos que me devoravam a moleira!
 Mas é claro! Eles me corroíam por dentro... Se agitavam dentro de minha cabeça e me faziam ter febre e devaneio. Desci do taxi ignorando o troco da corrida. Entrei na portaria do prédio, passando direto pelo porteiro e pelos moradores que me perguntavam se eu estava bem. Que diabos! Mas é claro que eu não estava!
 Subi no elevador e com esforço, apertei o botão que me levava até o sexto andar. Caminhei meio tonto pelo corredor, parei diante de minha porta e respirei fundo. Abri. Abri e senti o mau cheiro impregnar minas narinas. Vi com meu olho bom uma, duas... Quatro moscas verdes saírem de dentro do apartamento abafado. Ignorei aquilo, estava meio grogue,abobado, cpomo jáfalei. Tranquei a porta e caminhei em meio às moscas que dominavam meu lar.
 Sim. Dezenas de moscas voavam pelo meu apartamento pequeno. Sentavam em mim e eu as espantava, com grande dificuldade.
 Fui até o banheiro e olhei para a pia suja. Sangue, pus e vomito haviam se secado, os vermes que consegui tirar de meu olho certamente viraram aquelas moscas e se multiplicaram durante minha internação.
 Eu estava condenado... Arranquei o curativo do olho e o vi oco, em carne viva. Oco mesmo! Com um grande buraco que mais parecia à boca de um copo americano!
 Algumas moscas não perderam tempo. Esvoaçaram em meu ferimento e se posaram nele. Eu, de frente com o espelho, gargalhei. Gargalhei nefasto, contemplando minha triste condição. Gargalhei conformado, sentindo meu cérebro vibrar, minha baba escorrer e as moscas grotescas depositarem em mim mais de suas malditas ovas.
 Abri mais uma garrafa de rum e me sentei no sofá.
 Rodeado de moscas, bebi no gargalo, inerte em minha condição, conformado com minha desgraça. Devorado vivo por vermes e moscas. 


 
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Código do texto: d0135369a7d5afad00e49fba3cbdd419                  Enviado por: Julio C. Dosan em 12/11/2012

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Sobre o autor
Julio C. Dosan
Maringá, PR, Brasil


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