Homero era um ajudante de cientista e tinha aproximadamente trinta anos de idade. Etelvino, o tal cientista, estava testando sua própria mais nova invenção: um transmesclador molecular, que nada era além de uma cabine, a qual, uma vez acionada, realizaria a junção das moléculas dos corpos que lá dentro se encontrassem. Havia realizado testes com frutas, legumes, além de alguns peixes, sendo bem-sucedido numas ocasiões e tendo fracassos retumbantes noutras.

Certa vez o ajudante entrou na cabine, com o intuito de limpá-la e, assim, poder ajudar seu precioso mestre. O cientista não percebeu a ação do subordinado e, por conseguinte, se pôs a experimentar simplesmente se a máquina respondia a seus comandos através do painel. Somente um teste, aparentemente sem ninguém ou nada dentro dela, conforme pensava ele. O rapaz balzaquiano percebeu-a se cerrar e, mediante socos na porta feita de vidro blindado, tentou desesperadamente chamar a atenção do chefe. O pavor era quamanho que o coitado desmaiou. Mal sabia ele que um mosquito aedes aegypti se encontrava dentro da cabine outrossim...

Etelvino correu até o local para realizar inspeção e, somente então, percebeu o corpo do auxiliar estatelado no chão. Assustado, ele chegou ao desmaiado e procurou acordá-lo, pondo-lha cabeça sobre seu peito e desferindo-lhe tapas nas fachas. Assim que acordou, o rapaz relatou o ocorrido ao patrão, mas, sentindo fortes dores de cabeça, aos gritos, empurrou-o violentamente contra uma parede. O cientista teve a cabeça colidida contra a mesma e, consequentemente, não resistiu ao trauma craniano.

O cachopo se retirou a seus aposentos no laboratório, ingeriu uma dose cavalar de soníferos e, enfim, encontrou a paz por horas a fio. No dia seguinte, ao acordar mui melhor, já pela noite alta, percebeu sua blusa rasgada. Dirigiu-se a um espelho de trezentos e sessenta graus e percebeu longas asas nas costas, como um mosquito transmissor da dengue. Seus olhos estavam escarlates como o sangue e sua pele agora estava repleta de manchas alvas, conquanto ainda parecesse humana. O rosto exibia claramente seus vasos sanguineos, o que piorava deveras a sua aparência já não muito favorável antes. O monstro em que se transformara o dominava de tal monta que ele nem se assustou ao se vislumbrar frente ao espelho.

O ser abriu a janela de seu dormitório e se pôs a voar, como se já o tivesse feito com destreza outrora em diversas oportunidades. Primeiramente dirigiu-se a um ferro velho e encheu vários pneus, baldes, peças e partes de veículos com água. Depois fez o mesmo em terrenos baldios da região e residências. Piscinas, potes, garrafas, latas – tudo se tornava depósito de água e, logo, berçário para seus futuros rebentos. Retornou ao lar e descansou o dia inteiro.

Na noite seguinte, como tinha fome acumulada, saiu à procura de vítimas. Encontrou um sujeito ébrio devido ao uso de canabis sativa e dirigiu-se a seu encontro, num voo rasante. Com um só golpe contra a cabeça do indivíduo, pôde perceber o quão robusto se tornara, visto que a mesma foi decepada de pronto. Então, ele ergueu o corpo do indivíduo citado e passou a beber seu sangue como um alcoólatra alemão o faz com uma tulipa de chope durante competição de bebedeira, ou seja, da maneira mais sedenta e porca possível.

A seguir, dirigiu-se a uma fábrica de inseticidas e a incendiou com galões de gasolina. Tal prática, assim como as demais descritas, não teriam problemas rumo à sua reiteração até o monstro, dias depois da primeira morte, ser visto por dois policiais, que atiraram depois contra ele, mas sem conseguir alvejá-lo. O número de incêndios a fábricas de inseticidas, laboratórios de saúde, clínicas e hospitais incrementou-se, assim como o de assassinatos em busca de sangue.

Certa vez um sujeito ébrio estava cambaleante numa praça, até que caiu no chão. O ser, que já o espreitava, voou a seu encontro e se pôs de pé, para começar a caminhar rumo à vindoura vítima. Assim que se aproximou para segurá-la e poder decapitá-la, o sujeito, através de uma pistola, injetou uma dose letal de inseticida no coração de seu quase algoz, o qual cambaleou e ainda tentou voar para longe, sem, contudo, conseguir realizar seu intento. Espatifou-se contra o chão e ainda deu seus últimos suspiros antes de falecer.

O sujeito aparentemente ébrio havia encenado a atuação maravilhosamente, a ponto de enganar a criatura. Tratou de verificar a respiração e constatou a morte do ser. Conduziu o cadáver arduamente até sua vã e o encaminhou ao laboratório subterrâneo para análises variadas. Com o tempo, a cidade recebeu fotografias do monstro já falecido através de sítios via internet, de emissoras de televisão e de jornais. Ficou aliviada com o findar dos atentados e das mortes violentas na busca por sangue, mas não foi capaz de perceber o aumento gigantesco do número de mosquitos aedes aegypti, o que se tornou uma tormenta nacional novamente.

 

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Código do texto: 18abd6d3fadca526241e9c8c81e891dd                  Enviado por: POETA OLIVEIRA em 08/02/2013

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Sobre o autor
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NITEROI, RJ, Brasil


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