Histórico dos Árabes

 

A população da Hispânia muçulmana era complexa, estando representada pela elite administrativa, os árabes, e por uma população composta por cristãos, judeus, e berberes.

Os judeus que, por vários séculos, viveram em comunidades judaicas, na Península, mantiveram-se fiéis à sua fé.

Os cristãos, da Península, que já tinham assimilado a língua dos conquistadores romanos e falavam um latim já bastante afastado da sua forma original; com a chegada dos Árabes, no século VIII, alguns cristãos mantiveram-se fiéis à sua fé, outros se converteram ao Islão.

Logo, entre a população Ibérica, havia dois grandes grupos: os Moçárabes, cristãos que se mantiveram como tal, mas que, com o rodar dos tempos, assimilaram a língua e costumes dos árabes; e os Muladís, cristãos que se converteram ao Islamismo. Entre os Muladís, alguns subiram na administração e tiveram cargos de relevo junto dos Príncipes e Governadores árabes.

A MOAXABA nasceu e floresceu no Alandalus, poema que se destinava a ser cantado. Não se sabe ao certo quando surgiu. A tradição diz que um tal de Muqaddam, poeta cego, natural duma povoação da circunscrição de Córdova (a cidade de Cabra), e que teria vivido no século IX, começou a escrever uns poemas que se afastavam da original forma dos poemas Árabes: poemas, em Árabe, mas com estrofes:.


*Essa pequena estrofe, no início, com 2 versos que rimavam entre si; era a "Entrada" ou Mote;

*Seguiam-se: 5 a 7 estrofes, assim: 3 versos de rima diferente da dessa Entrada:
Mais: 2 versos a rimarem com a Entrada.

*Por fim, para Remate, ou Finda, ele introduziu uma pequena estrofe da Poesia Popular, da tradição oral, que ainda era conhecida pela população de raiz ibérica! Que ele transcrevia foneticamente, em caracteres árabes.

 

Quer dizer: Muqaddam inventou, segundo se pensa, um poema que era escrito em Língua Árabe e rematava nesse Latim já arabizado, falado pelo povo! Era um poema bilingue!

 

A MOAXAHA criada pela escritora e poetisa MYriam Jubilot de Carvalho não é tal como faziam os poetas Árabes do Alandalus. Ela fez uma adaptação para o nosso tempo! Optou por não fazer poemas tão longos. Em vez das sete estrofes, faz três ou quatro; e, para o "remate", inclui uma citação de algum poeta que gosta; jeito singular de homenagear alguém.

 


MOAXAHA – POESIA PORTUGUESA ATUAL

 

Segundo Myriam Jubilot de Carvalho, pseudônimo de Maria de Fátima Oliveira Domingues, nascida em Tavira/Portugal, em 1944, a Moaxaha, como qualquer outra obra de criação - ou ocorre uma ideia, ou uma imagem - ou a formulamos deliberadamente. ”– Bom, como todos nós somos um inesgotável mundo de palavras, é fácil fazer montinhos de rimas...!” 


Esquema rimático

Entrada - apenas 2 versos - rima a, a

2 quintilhas: 1ª quintilha - rimas b, b, b, a, a

                     2ª quintilha - rimas c, c, c, a, a

+ 1 "citação" a finalizar!


Logo,

Entrada -  apenas 2 versos, uma só rima

Depois, são as 2 quintilhas - 3 versos com uma rima + 2 a rimar com a entrada.

O remate, ou finda, deste tipo de poema depende do momento, em geral surge relacionado com qualquer ideia que baila no campo da consciência… O grande desafio desta composição está na citação de algum poema da poesia medieval; ou na citação de algum poema, ou poeta, da preferência do autor. Em qualquer destes casos, as citações devem estar devidamente identificadas!

 

Myriam Jubilot de Carvalho, em seu blog, diz que, a partir do esquema acima, “a Moaxaha, assim vai surgindo. Tentativa em tentativa, constrói-se um poema que resulta com muita unidade. Usa rimas internas, sem problemas em repetir alguma palavra caso sinta essa necessidade – são pequenos truques que contribuem para a coesão do texto, dando-lhe uma estrutura bastante fechada”.

 

Ilda Maria Costa Brasil

Porto Alegre/RS/BR

 

.

Moaxaha do Deserto, de Myriam Jubilot de Carvalho

 

o céu reflecte a areia distante do deserto

tal como espelha o meu imenso mar aqui tão perto

.

um mar de areia a cantar nos meus ouvidos

seus cantos de sereia – e eles ouvem comovidos

os cantos das estrelas comuns aos meus sentidos

- é mais fácil cruzar da vida os áridos desertos

escutando sem canseira do universo os seus concertos

 

que dizes mãe vou viajar fazer-me ao mar vou ser sereia

dias sem sonhos ficam tristonhos sem odisseias

e os sonhos brincam nos meus dedos como as espumas como as areias

- sonhos que guardam segredos que eu desperto

prendas que eu abro -  e já não há deserto

.

tanto amare, meus versos,

tanto amare

rejubilam meus olhos

de vos encontrarem

.

Notas:

1ª) Na “entrada”, deu-se naturalmente uma intertextualidade com “o mar que espelha o céu”, do Fernando Pessoa;

2ª) Na “jarcha”, uma recriação do texto de uma “jarcha” moçárabe, a jarcha nº 18 da classificação de Garcia Gómez.





 



 
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Código do texto: 0aa6440359e534d1178a27634d8dfa74                  Enviado por: Ilda Maria Costa Brasil em 17/09/2012

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Sobre a autora
Ilda Maria Costa Brasil
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