No cimo do monte, vislumbra-se a pequena aldeia serrana e o seu casario térreo em granito semeado, aqui e alem, por entre verdes matizados das plantações, no precário equilíbrio íngreme da encosta.

      Por altivez contrastante, o campanário eleva-se do tridimensional templo, encimado pelo elmo piramidal de plumas vermelho-ocre, setas e galo de cata-vento de castanho-ferrugem e cota de armas em branco-sujo. No seu bojo, balança-se um pequeno sino de verde-éreo desbotado, zurzido pelo vento.

      Sobre as casas, de telhados desengonçados e escurecidos pelo tempo, erguem-se pequenas chaminés que lançam no ar o fumo negro do queimar da lenha e o odor indecifrável da comida rústica.

      Se o tempo decorre pachorrento, sob o sol abrasador, logo o campanário o desperta pelo bater do martelo no bronze gasto e desafinado, marcando o compasso inexorável das horas, das orações diárias e dos parcos eventos.

      E, no topo do monte, o olhar vagueia pela paisagem agreste, ondulando de vales para montes, enamora-se do pontilhado, entre o matizado esverdeado, dos multicoloridos das flores e dos frutos, do petrificado casario e muros divisórios das parcelas de herança, e das figuras anãs dos personagens viventes que deambulam na sua azáfama quotidiana.

      Os sons provindos da aldeia entoam melodias monocórdicas espaçadas; o ladrar dos cães, o marulhar das picotas de água, o mugido das vacas, o zurrar dos burros, o cacarejar das galinhas e os balidos das crias em desmame. Pela tarde, junta-se-lhes o piar das aves que voam livres.

      E campanário tudo comanda, qual senhor feudal; o movimento, o trabalho rural, o descanso, a oração, a vida que ressurge e a morte que acontece, os dias e as noites porque até o sol e a lua lhe obedecem revezando-se no seu turno temporal.

      Os corações se quedam a cada badalada, decifrando-lhe o código emitido dado pelo martelo sem dó do sino gasto, indecisos e inseguros das suas emoções iniciais e nos sentimentos inculcados por gerações.

      E o campanário exige-lhes o reatar dos actos que indicou vibrando novas pancadas rítmicas, qual marcador de remada em nau sem mar e de escravos sem remos.

      Sobre o monte, o teu e o meu olhar, enamorados, quedam-se no espanto desta tirania. As nossas mãos dadas contraem-se amorosamente temendo a quebra do momento, os nossos lábios sorriem e beijam-se numa longa carícia e não ousamos sequer enveredar à aldeola para que a nossa liberdade de apaixonados não seja manietada pelos usos e costumes.

      E, assim, desafiamos, destemidos, o tirânico campanário…

      Se ele ordena o repouso na tarde escaldante, nós refugiamo-nos nos trilhos florestais em caminhadas extenuantes e refrescamos os corpos desnudados no lago escavado pela cascata de uma fria nascente próxima, purificando-os para os prazeres que se adivinham breves e ousados, enlaçamo-nos na paixão, saciamo-nos na partilha dos odores, dos orgasmos, do amor que nos enleia e da doação mútua.
      

      Se o tirano ordena o labor, deitamo-nos à sombra das frondosas árvores e, abraçados, repousamos da extenuação corpórea pelo enlace matrimonial dos nossos corpos e espíritos.
Assim, irreverentes, desobedientes e alheios ao hábito envolvente, quando a noite se alia ao campanário pelas badaladas das vésperas, nós percorremos caminhos pouco trilhados, quase desconhecidos, alimentamo-nos da natureza e, travessos, amamo-nos mais e mais uma vez, tendo por leito o duro chão de terra e por lençol o musgo e as plantas rastejantes.

      Nas noites de prata, de lua cheia, e pontos estrelares que tremeluzem incessantes, sentamo-nos olhando o céu límpido e sonhando viagens inter-espaciais sem fim.

      Nas noites de breu, de nuvens negras ameaçadoras, deitamo-nos, lado a lado, apreciando o cenário barulhento e luminoso das tempestades que avizinham. Se a chuva cai, banha o nu dos nossos corpos unidos pelas exigências de nossos desejos e fluidos orgânicos.

      Se a noite esfria, refugiamo-nos no velho moinho de pedra e madeira rangente tornado castelo de nosso amor, e, junto ao bailado irracional das chamas, num crepitante vermelho-alaranjado que martiriza a lenha, deitamo-nos e adormecemos num abraço sem temores imediatos nem medos esquecidos, retemperando-nos o vigor.

      Mas numa noite, sou acometido de vigília, o sono esvaiu-se de mim, negando o esquecimento. Olho-te adormecida, nua, esbelta, de feição feliz e satisfeita e eu torno-me solitário, cogitando na nossa vida.

      E, eis, que a vingança do campanário se faz presente e ferina. Na noite de todas as tempestades, acima do ribombar dos trovões e do rugir lancinante do vento em fúria, surgem uma, duas badaladas, que me cravam retesado no chão onde me sento e contra a parede fria em círculo.

      O campanário, hilariante, anuncia-me que cada badalada mais tem a dualidade feroz de ter em meus braços mais um tempo, mas que esse tempo se esgota por não mais te poder ter…

      Uma, duas, três badaladas… Estou cativo do tempo, não me consigo mover de tão enregelado que estou; desejo abraçar-te, beijar-te no teu sono, aconchegar teu corpo junto ao meu, mas minhas pernas não se movem e o meu coração queda-se inquieto numa hora de angústia…

      Uma, duas, três, quatro badaladas… Basta, campanário! Vencer-te-ei!

      Lanço-me célere para o leito de peles e, suavemente, enlaço-te e beijo-te.

      - Sabes, campanário, poderei não ter mais junto de mim a minha amada nesse futuro que a vida vaticinou, mas, jamais – ouve bem! – jamais me negarás cada momento que me resta em abraçá-la até à despedida final.

      E tu, minha amada, que numa sonolência risonha, te aconchegas ao meu corpo, puxas meus braços para que te envolvam fortes, num sussurro, dizes:

      - Amo-te!
   

      E eu amar-te-ei eternamente!


João Loureiro


 
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Código do texto: c80cab803e84eaac72fe26d561c83b84                  Enviado por: Triste Poeta em 29/11/2012

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