Não somos indestrutíveis nem em nossa juventude

 

 

 

 

 

Eu pouco conhecia Michel. Nas poucas vezes em que eu o atendera, ele me parecia um rapaz muito calmo. Estudava Geografia na universidade onde eu trabalho há mais de uma década. Pelo pouco que eu o conhecia, ele parecia não falar muito. Contudo, há alunos que se encabulam perante servidores públicos que lhes atendem, mas que revelam sua face mais descontraída perante os demais alunos, o que é perfeitamente normal. Afinal, é entre alunos que se revela maior grau de identidade.

 

Tinha ele a mesma altura minha, mas era mais magro que eu. Tinha cabelos lisos de um castanho que revelava sua juventude, a qual nem aos cinco lustros chegara ainda. Ainda tinha a idade com a qual os homens nada raro mais brincam uns com os outros. Não me lembro da cor de seus olhos, mas tal não vem ao caso.

 

Ele era um rapaz alegre, simpático, de sorriso simples, segundo recados deixados por parentes, amigos e colegas seus num blog trazido pela modernidade. Era um desses sortudos flamenguistas campeões do último campeonato brasileiro de futebol e tricampeões estaduais do mesmo esporte. Ainda voltarei a ver o meu Vasco campeão de qualquer coisa que não seja uma segunda divisão de campeonato brasileiro. Mas Michel infelizmente não... Seria gostoso brincar com ele em tal circunstância, mas ele não verá mais clube algum ser campeão. Infelizmente.

 

Através de correio eletrônico enviado por uma aluna conhecida minha, Ana Paula, igualmente estudante de Geografia, fiquei sabendo acerca da tragédia que o havia vitimado. Busquei logo acessar a página do jornal eletrônico alagoano por intermédio do link deixado pela aludida aluna. Enfim vi a fotografia de Michel (que fora tirada em alguma solenidade) e, de imediato, diferentemente de minhas colegas de labor, reconheci-o. Não sei se eu o reconheci simplesmente por gostar de reconhecer os usuários (sobretudo alunos) a que atendo, mas simplesmente não me olvidei do rapaz. Afinal, eu mesmo gostaria de ter o meu rosto lembrado pelos atendentes da biblioteca que eu utilizasse. É decerto prazeroso isso! Mas é que os nomes e rostos são tantos que às vezes a tarefa do reconhecimento se torna assaz árdua.

 

Fiquei sabendo que ele sofrera, três dias antes (numa sexta-feira pela manhã), um acidente automobilístico em Matriz do Camaragibe, no estado de Alagoas, após deixar a praia de Porto de Galinhas, em Pernambuco. Ele e os demais quatro turistas haviam ido a Alagoas com o fito de participar do Encontro Nacional de Estudantes de Geografia deste ano e, certamente, haviam desejado se divertir um pouco mais, como quaisquer jovens de sua idade. Contudo, o veículo alugado acabou sofrendo um capotamento, acidente que, além de vitimar fatalmente Michel, feriu os outros três ocupantes, gente ainda mais jovem do que ele. O quinto ocupante saíra ileso.

 

Ainda acabei conversando com outro aluno, Eric, o qual tivera um pouco mais de contato com o infelizmente falecido jovem. O clima se configurava obviamente mórbido durante o diálogo, como não poderia deixar de ser. Lembrei a este rapaz de que em formaturas o clima sempre se torna funéreo quando a turma a colar grau presta homenagem a alunos falecidos antes da cerimônia. Alunos que não obtiveram o êxito maior na faculdade.

 

Em seguida, procurei a ficha cadastral de Michel na biblioteca, mas encontrei seus dados preenchidos sem encontrar a foto. Encontrei sim a sua letra, a qual eu o vira utilizar para preencher o formulário aludido com o fito de um dia se graduar numa faculdade, sonho de qualquer jovem que presta pré-vestibular. Provavelmente fizera com ele a brincadeira de quase sempre: a de dar meus pêsames ao calouro que acaba de chegar, pêsames simplesmente pela situação de estar durante uns meses sujeito a trote por parte dos veteranos. Pus-me então a rezar por sua alma e por sua família, a qual decerto o amava deveras.

 

Dias depois de saber da fatalidade, eu conversei com a aluna que me enviara o email com a péssima notícia que começara a minha semana e findara a semana anterior dela. Agradeci ternamente pelo carinho para comigo, uma vez que deve saber de minha imensa simpatia pelos usuários de meus serviços, mais notadamente pelos alunos (os internos e os externos à universidade). Ela me disse que acompanhara a comunicação da notícia à família do rapaz. Deus me livre disso. Lamentamos nós dois novamente o ocorrido, antes de ela se dirigir a um dos computadores e finalmente ir embora.

 

O motivo alegado para o acidente, naquela reportagem, havia sido o descontrole do motorista ao volante, quando tentara passar um boné para um ocupante da parte de trás do carro. Entretanto, acabei de ler outra reportagem sobre o aludido acidente, a qual revelou que policiais haviam encontrado latas de cerveja pelo automóvel. Se o motorista se encontrara alcoolizado, é realmente uma pena as propagandas, as blitz e a lei não estimularem as pessoas a dirigir ingerir álcool, por mínimo que seja. Mas tal não vem ao caso. Perdemos um colega e seus sonhos. Eu adoraria que tivesse havido uma segunda oportunidade, como para várias outras pessoas já houve neste mundo. Todavia, sobraram a saudade e a tristeza. Ficam aqui minhas condolências à família, aos amigos e colegas.

 

Paulo.

 

26-1-10

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 
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Código do texto: 75711980654107e8a5e15b436d9124d2                  Enviado por: POETA OLIVEIRA em 29/10/2012

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Sobre o autor
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NITEROI, RJ, Brasil


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