A flor do Amazonas já não mais solta seus polens de bondade pela Tijuca; foi para o interior de São Paulo num vaso pequeno com terra fofa, junto à planta-mãe, responsárvel pelo polen que um dia a gerou. Bem acomodada, imagina-se que terá por aquelas paragens uma vida mais tranquila do que outrora, longe da agitação carioca. Aliás, esta flor nunca foi muita calma, mas sim uma flor a viver a agitar-se, como se estivesse numa floresta verdejante sujeita a inundações, tempestades e todo o tipo de mudanças de temperamento quase instantaneamente, a exemplo de sua Amazônia natal.

É daquelas flores com as quais os jardineiros costumam conversar, de tão acolhedoras que são suas pétalas. É também daquelas flores que recebem de pétalas abertas carinhosamente abelhas e beija-flores, nas doces visitas destas espécies. Eu mesmo, um pobre cacto, muito perambulei com ela pelo centro do Rio, embora infelizmente não do jeito por mim desejado, visto como os beijos daquelas pétalas nunca me vieram para outra parte que não as bochechas espinhosas masculinas de barba por fazer ou de barba feita, mas com espinhos esperando para rapidamente crescer.

Também caminhei pelas ruas tijucanas com aquele ser costumeiramente apreciado em sua beleza por outros cactos, embora eu o tenha feito com menos intensidade do que no Centro. Cheguei até mesmo a conhecer a igreja por ela frequentada, o grupo jovem do qual fazia parte (inclusive neste ingressei, apesar de nunca haver simpatizado com a ideia, embora minha genitora houvesse tentado plantá-la em minha mente em algumas ocasiões). Aliás, costumo permanecer anos sem adentrar uma igreja, sem que no entanto isto afete minha crença inabalável em Deus. Trata-se de uma fé no mesmo Deus que decerto a vida inteira esteve a meu lado, feito um pai a ajudar o filho a andar de bicicleta pela primeira vez sem rodinhas.

Mal compreendida por alguns em sua pureza, mas amada por muitos outros, a flor amazônica era bastante conhecida na capital carioca, porquanto dotava-se de notável vitalidade e facilidade de demonstrar carinho. Também angariava olhares por onde quer que passasse, devido à beleza de pétalas, caule e raiz e a um andar deliciosamente “espivetado” (típico de pivete, como ela adorava dizer), o qual cultivara-me o amor sem esforço algum. Contudo, a flor de jeito serelepe conseguiu colher mais amor em meu coração do que o por ela dispensado a mim.

É realmente estranho passar hoje em dia em frente ao Tijuca Tênis Clube, ou no Shopping Tijuca, na Praça Saens Pena ou em qualquer ponto da Rua Conde de Bonfim, sabendo que a flor não estará lá a polenizar um bairro tão cheio de sangue pelo chão. Sei que lá nem mesmo ela dorme ou já retornará do trabalho. Não fará compras na padaria perto do apartamento nem assistirá à missa na igreja onde eu a observava noutros tempos a orar.

Lembro-me de que a flor telefonara para meu celular no dia de meu aniversário pela manhã, o que eu sabia não ser comum, posto nunca haver a amazonense me contatado em outro aniversário meu sem que já fosse quase meia-noite de tal dia. Desejou-me felicidades e comunicou-me acerca de sua ida a São Paulo, a trabalho, por não mais vir a haver no Rio o setor em que labutava. Partiria logo após o seu aniversário, ou seja, vinte dias após o meu. Fiquei em estado de choque assim que desliguei o celular, pois não podia acreditar naquelas palavras. Nem queria crer que uma pessoa com a qual eu passara a falar apenas duas vezes por ano (no meu aniversário e no dela) estava praticamente de malas prontas e fugiria de minhas vistas e visitas.

A data da despedida foi festejada na Barra da Tijuca, junto a outras flores e cactos que através da aniversariante eu tivera o imenso prazer de conhecer em outras ocasiões, além de outros seres apenas conhecidos na referida data. Inclusive o casal comprador do apartamento foi convidado e nos levou de carro. Eram todos seres cultivados com a graça de Deus, assim como ela; água benta e terra fofa davam energia àqueles seres fantásticos. Entretanto, em momento algum esqueci-me de qua ali se dava sua despedida de meus olhos. Aquela flor um dia tão amada por mim, mas já eleita minha irmã caçula postiça, estava de partida. Apesar de ela manter um lar na própria Tijuca – em outro endereço, no qual elas ficariam em alguns fins de semana e feriados -, eu sentiria saudades do apartamento em frente ao Bingo Tijuca, apartamento que me proporcionava tão boas recordações. Seria difícil conceber o bairro sem ela. Consegui, todavia, segurar bravamente as lágrimas.

Mais de um ano se passou até a tecnologia, através da internet, me trazer a excepcional notícia do retorno em definitivo da bela flor ao Rio, em cujo leito passara a maior parte de sua vida. Eu soubera que, antes de partir, ela tinha ficado de passar alguns fins de semana e feriados na cidade maravilhosa, mas ela quase nunca me comunicava quando de sua vinda à cidade, o que me fez perder contato. Contudo, minha fé em Deus me dissera antes mesmo de sua primeira partida para São Paulo que cedo ou tarde a manauara regressaria de vez. E os polens de esperança, energia e encanto voltaram à Tijuca e a este coração até então muito preocupado com aquela flor.

 

 

 

 

 

 

Jan.05



 
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Código do texto: c2e1a345d7fcdd756ea40c85ff651c70                  Enviado por: POETA OLIVEIRA em 24/10/2012

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Sobre o autor
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NITEROI, RJ, Brasil


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