Cunha e Silva Filho

 

 

         Bem me lembro das primeiras leituras adolescentes e, consequentemente, dos meus primeiros comentários analíticos  de algumas obras lidas. Foram poucos esses comentários pretensamente críticos. Eles se seguiram logo após as chamadas “apreciações” que meu  professor de literatura, A..  Tito Filho (1924-1992)  -  festejado  e admirado mestre  da geração que frequentou o Liceu Piauiense na primeira metade  da  década de sessenta -,   costumava propor como  trabalho escrito  a nós alunos. “Apreciações” -    era assim que  as chamava, exigindo-nos um tipo de pequeno ensaio a ser desenvolvido individualmente pelos alunos e nos quais pudéssemos demonstrar  capacidade de pesquisa e originalidade de pensamento Podiam ser de um tema determinado mas quase sempre ligado a literatura, como, por exemplo,  um movimento literário, a obra de um escritor, um tema social ou político da atualidade de então. Lembro-me de que um deles foi um paralelo entre parlamentarismo e presidencialismo. Como não era tão forte em política, recorri à ajuda de meu pai, catedrático de História do Brasil e jornalista  visceralmente político. O autor de Teresina , meu amor (1973)* não era de  dar nota alta. Achava-o  rigoroso, mas o respeitava pelo brilho das aulas, pelos gestos, voz e enorme facilidade  de expressão. Nos seduzia pela vocação de orador. Mais parecia um lecturer  em sala de aula.

As “apreciações”, no entanto, serviram como meus primeiros passos na prática da linguagem  escrita e de natureza ensaística, que logo me encaminhariam aos comentários ingenuamente críticos ou mesmo a tentativas de fazer ficção. Quanta audácia juvenil! Ah, como aquelas queridas “apreciações’ me foram úteis no futuro! Naquele  período inicial de encantamento com o texto literário, comecei a não apenas ler um monte de textos nacionais ou estrangeiros em tradução portuguesa, alguma poesia em livros didáticos, mas também  muita leitura das chamadas fotonovelas da época, destinadas  mais a mocinhas românticas, que me seduziam porque combinavam a fotografia das ações, de tramas rocambolescos, destacando a voz (escrita) do narrador, os pensamentos íntimos dos personagens, os cortes, entre as cenas que mais pareciam um filme impresso. Funcionavam como ersatz das atuais novelas  de televisão, assim como, remotamente, desempenharam função semelhante aos célebres  folhetins  do século oriundos da França e, depois,  imitados aqui pelos nosso primeiros  romancistas do século  19. 

Aquelas fotonovelas eram  repletas de histórias de amor, sofrimentos, renúncias, traições, heroísmos e  outros ingredientes sentimentais, glamurosos  ou não. Delas havia vários títulos, “Capricho”, “Sedução”, “Ilusão”, Grande Hotel” e outras, fora os gibis com suas maravilhosas cenasem preto e branco ou coloridas, com suas histórias e suspenses, seus medos e terrores, seus heróis e vilães Já naquela época havia da minha parte de  leitor um interesse bem acentuado pela linguagem  dos textos, dos diálogos,  da trama, do “sentido da obra,”  conforme a entende hoje  Tzvetan Todorov.1 Jamais poderia renegar aquela experiência de leitor de fotonovelas, cujo hábito provavelmente tenha  vindo da minha irmã mais  velha, a Sonia Setúbal  Cunha e Silva naquela época, leitora voraz, cinéfila fidelíssima e que, por algum tempo,  dedicou-se a escrever no jornal  “Estado do Piauí” sobre  a sétima arte. Acredito que a falta de teatro em Teresina na época foi responsável pela  paixão nossa (de toda a família) manifestada pelo cinema.

Era mesmo esse “sentido da obra’ que  me aguçava o interesse naqueles anos idos e vividos. Nada mais.

Me  recordo de que, por volta dos dezesseis aos dezoito anos, a minha  leitura de autores se inseria nesse tipo de  aproximação com o texto literário, i. e., um texto para mim  era visto como   experiência de vida,  como conhecimento,  como um despertador  de emoções. Não havia ainda se apoderado de mim a leitura como  compreensão metalingüística, nem como metaliteratura. Mais  me  importava  era a fruição das pessoas que, no texto, falavam, sonhavam ou odiavam  tanto ou tão mais do que na vida empírica.

Quando, por exemplo,  lia contos de Coelho Neto (1864-1934) ou de outros autores e sobre eles me debruçava, deles extraindo comentários, fazia-o sem imposições teóricas que me  afastassem por demais da fruição do texto ficcional ou do  poema. Havia, sem dúvida, grande dose  da audácia e da  naïveté juvenis que, por isso mesmo, não me tolhiam aquela espécie de “impressionismo” incipiente e imaturo. Só um fato me parece hoje decisivo e mesmo  positivo: meus comentários se distinguiam, sem que eu próprio  disso desse conta, pelas espontâneas forma de olhar   para um texto sem a armadura teórica de hoje. Só prazer da leitura  me bastava.

Alguns autores costumam dar pouca ou nenhuma importância aços escritos da fase  da imaturidade. Não penso assim. A fase imatura de nossos produção literária é justamente aquela que exprime a visão  do autor no passado que, na realidade, lhe vai permitir discernir como ele, ainda não assoberbado com um inumerável arsenal e teórico, trabalhava na sua investigação crítica diante de uma obra  literária em qualquer gênero que fosse.

Me vem à mente. Agora,  o quanto os estudos mais profundos e complexos  da teoria literária influenciam e são  responsáveis  por essa perda da pureza e da inocência.

Uma professora  ainda muito jovem, assistente de Augusto Meyer (1902-1970), que tive na Universidade do Brasil (hoje, UFRJ), , me fez uma observação que para mim foi na época uma  surpresa e ao mesmo tempo uma abertura ao conhecimento de fundamentação teórico-literária. Ela propôs a minha turma  um trabalho de análise literária  a ser realizado individualmente. A mim coube um poema de Cecília Meireles (1901-1964). Determinou a data de entrega dos trabalhos. No dia  da devolução  dos trabalhos, pude verificar  que, no final da minha análise manuscrita, ela me chamou a atenção  para uma deficiência  que ela em mim encontrara. Apesar  de dirigir um elogio sobre a minha sensibilidade de lidar com o  texto poético, me advertiu para uma certa pobreza de recurso teóricos de interpretação  de texto. Era a pura verdade. Descobri que, no curso secundário – e no meu caso fiz o científico -, não dispunha de formação maior em teoria literária, pelo menos ao nível  conhecimento médio.  A crítica que me fez  tinha procedência, porquanto me abriu os olhos para a valorização do domínio teórico, sério e em bases sólidas, sem o qual a análise se apequena, ainda que o analista  seja dotado de algum talento para o exercício da análise e interpretação  do texto literário.

O que esse depoimento que,  agora, trago à atenção do leitor, por linhas inversas, vai exatamente ao encontro daquela  ponderada queixa de Todorov, ou seja, a teoria jamais pode ser subestimada nos estudos literários nos curso  de letras e até mesmo no ensino médio de boa  qualidade, mas, ao mesmo tempo, quando atinge a hipertrofia  no uso de seus recursos e técnicas,  haverá forçosamente uma espécie de perda da inocência na relação  do analista  com o texto, perda do amor ao texto e, de certo modo,  perda do prazer transmitido pela vida que há no  texto,  perda pelo gosto do que se lê  e pelo amor que o leitor deve e tem que sentir no processo da leitura, que, por sua vez, é um  processo de  revelação  do viver, do sonhar, enfim,  da leitura  como vivência, experiência, crescimento do repertório existencial do leitor, forma  permanente de sedução provocada  pela força do texto, num pacto silencioso entre ele e o leitor, que, até então,  se via livre dos condicionantes gerados pelas  variadas   e múltiplas técnicas e approaches  no estudo da obra literária, mais ou menos, mutatis  mutandi, naquela direção, e método de análise fria, formalista  e cerebral que, uma vez, Álvaro Lins (1912-1970)2 reprovava como defeitos visíveis no new criticism anglo-saxônico, norte-americano e até em alguns apressados  seguidores brasileiros.

Obviamente, Lins, um crítico aberto às novidades, lúcido, de modo algum repudiaria a nova crítica feita com seriedade e sensibilidade voltadas para o fenômeno estético-literário.Tanto assim  que no seu ensaio comparativo sobre T.S. Eliot (1888-1965) ele menciona e comenta,  com conhecimento de causa,  grandes  nomes da crítica inglesa e norte-americana.

A sua restrição compreendia apenas as falsificações que encontrara entre nós. Reprovava, no entanto, os exageros desvirtuadores do “autêntico new criticism estrangeiro”, daqueles que faziam da práxis crítica da nova crítica uma   espécie de “ the lemon-squeezer school of criticism” – definição de T.S. Eliot que para Lins era carregada de “espírito  satírico demonicamente devastador”.3

O fato é que, voltando à questão central deste artigo, sem dúvida, as várias e diferentes correntes  da crítica contemporânea, com sua metodologias cada vez mais  complexas paradoxalmente, até certo  grau, foram  responsáveis por essa quebra da aura que tem  envolvido  o relacionamento do leitor especializado,  dos estudantes de letras, do  professor universitário, principalmente, com a alta complexidade do processo  da leitura, a qual, n o ambiente acadêmico universitário, objetiva, é óbvio,  preparara bons analista, ensaísta,  críticos  de textos que, todavia, vão sofrer inapelavelmente uma forma de redução do prazer estético-comunicativo ao aproximar-se  da obra literária  no tocante  ao que Todorov chamou de, convém repetir, “o sentido da obra”.

A formação teórica na análise crítica, ipso facto, de certa maneira  equivale a uma perda  da inocência. Sem  retorno. Este é preço do domínio dos saberes teóricos  dos quais todos os que neles somos introduzidos ou por ele assimilados,  não podem sair ilesos. Infelizmente. Por outro lado, o leitor comum, sem os condicionantes metacríticos e a alta sofisticação do instrumental teórico múltiplo, cultural, geográfica e temporalmente,  é bem provável que, nessa questão, seja o vencedor.

 

  1. .TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Difel, 2009.

             2 LINS,  Álvaro. Teoria literária.  Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1970. A referência diz respeito aos ensaios do capítulo IV “O autêntico ‘new-critcism’ no estrangeiro”(p.119-132 ;ao capítulo V , “A desimportância do ‘new-critcism’, em  arrivistas e carreiristas, dentro do Brasil” (p.132144) e ao capítulo VI, “Relógio universal e Quadrante  brasileiro”. (p.144-150.

           3.  idem, ibidem, p. 136.


 
Cunha e Silva Filho Views: 1529

Código do texto: 0d8662a83ea1318c800d1cb4785cbbef                  Enviado por: Cunha e Silva Filho em 23/10/2012

Compartilhe este texto com seus amigos   
 
  
  

Copyright © 2018 Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.

 
Ler Comentários [0]


 Escrever comentário

 
Sobre o autor
Cunha e Silva Filho
Rio de Janeiro, RJ, Brasil


 Ver mais textos deste autor