Retrato do Brasil atual

 

 

                                               Cunha e Silva Filho

 

 

          Ante os últimos acontecimentos surgidos no país,  apresso-me  em expressar  o meu assombro, a minha perplexidade  de mistura com  certo receio   pelo que  atravessa a nação.         

As primeiras  manifestações  organizadas  por estudantes do ensino médio e de universidades  tendo como pauta  principal  o chamado  “passe livre” não foram   algo  precipitado ou saído  de uma  cabeça  desmiolada de algum jovem descontente com  as mazelas dos transportes urbanos  das nossas  principais  cidades.   Era algo que  se desenrolaria  cedo ou tarde  no Brasil, portanto   algo previsível que  estava entalado  na garganta  aparentemente  acomodada e supostamente alienada de uma juventude.

Além da realidade concreta  provocadora da  rebeldia  dos  estudantes, ou seja,  o aumento  do preço da  passagens de ônibus e  a falta do passe livre,  havia  um descontentamento   maciço da população brasileira  sufocado, reprimido, porém  prestes a explodir  como um vulcão  adormecido.

 Bastou   o estopim, a fagulha   provocada pela  juventude nas ruas para que  as manifestações se transformassem,   em toda a sua plenitude, em indignação  nacional,  envolvendo  agora,  adultos,  velhos e  crianças  acompanhadas dos pais, gritando  palavras de ordem,  carregando cartazes,   com  frases  alusivas  a uma série de desacertos  de nosso  governantes  em áreas  de vital  importância  à normalidade do cotidiano da sociedade brasileira:   transporte sucateado,  saúde em frangalhos,  escalada sem precedente  da violência  de criminosos  impunes,  barbarizando   pessoas  de todas as idades, além  de um  quadro  vergonhoso   de  representantes  do povo  em Brasília, no Senado,  na Câmara  dos Deputados,  em alguns governos estaduais, em prefeituras das capitais  e do interior, praticamente  toda uma   classe  política   que, pelos seus  malefícios  feitos contra  o país, sobretudo   por  ações  de corrupção  durante os seus mandatos,  pouco  ou nenhuma  atenção   tiveram  para com  os  seus  representados,  quer dizer,  o povo brasileiro  que  os  elegeu  com a convicção  de que  iriam   defender  os direitos  da população brasileira. O gigante ( hámuito tempo adormecido) da letra do  hino  brasileiro acordou por completo,   atingindo  todo o território  nacional em passeatas,  em manifestações  de protestos  vigorosos  e candentes  contra  os males  do governo   atual.  

Nem em outras   manifestações   anteriores   ocorridas  no país, como  as “Diretas Já”,  os caras  pintadas   contra  o  governo  Collor,  tiveram  a intensidade  e a quantidade   de  manifestantes   quanto   estas que   vimos  há poucos  dias, atingindo  o país  inteiro e com repercussão  das comunidades brasileiras   em países  estrangeiros.Aquele cartaz que vi pela  TV  de um brasileiro em Londres  exibindo a frase tão  oportuna  Wake up, Brazil! (Acorda , Brasil)   é algo  que  traduz  a percepção  distante do país   por  alguém  que  explicitamente  compartilha  e se condói  do que  está vivendo   a sociedade atualmente.

Nenhum governo  se sustenta  quando   seu povo  se conscientiza  de que  alguns de seus direitos de cidadania foram  suprimidos. O único  lado  ruim  dessas manifestações   foi manchado  pela  irrupção da onda   de vandalismo   de grupos   criminosos que se misturaram  no meio  das passeatas  realizadas com  fins  pacíficos. Esse lado  obscuro  e abominável  deve ser contido  com  rigor pelos órgãos de segurança de cada estado   da Federação.

Se  os órgãos   de repressão contra  criminosos  não  forem    acionados  de forma    constante    e estratégica,  temo  pela   integridade  do patrimônio  público e  privado   de nossas  capitais e  outras cidades.  Dá-me a impressão,  vendo  as ações de criminosos   oportunistas   atacando  tudo  que vêem pela frente,  saqueando  lojas,   depredando     edifícios  públicos,  incendiando  veículos até com  passageiros    no seu interior,  praticando  arrastões,    furtando,   roubando, estilhaçando   vidros,   quebrando  portas,   levando  mercadorias  jóias,  carros, motocicletas,  comida,   enfim, tudo  que lhes chegue às mãos,  de que  o Estado brasileiro    está vivendo  uma  fase  de   vazio  de autoridade, de acefalia,  em nível   perigoso  para  as instituições democráticas   que  queremos de fato ver consolidadas.  

A Presidência  da República  demorou  muito em dar satisfação  às reivindicações   das manifestações    pacíficas  e está demorando  muito  com  relação   à onda  de desordeiros  que se  alastram  pelo país afora. A sensação que tenho  é de um estado  de anomia diante  de práticas criminosas a que estamos  assistindo   e veiculadas  pela mídia   diariamente  nos  últimos dias.

Há muito venho  publicando neste  blog    artigos   advertindo  as autoridades brasileiras para  os  mais graves  problemas  que  o país  vem atravessando, desde  a corrupção -   impune  - de  parte de nossos  políticos até a escalada de violência    que parece não ter  fim.

Talvez  a descrença  que  o povo brasileiro  está manifestando  pelos políticos e governantes   nossos  combinada com  a violência   cometida por criminosos  contra o cidadão brasileiro seja  parte de um todo composto de desrespeito  pelo bem-estar   do povo  e pela  inoperância das autoridades,  em todos os níveis, de solucionar  os  males  crônicos da  nação. O mau exemplo das autoridades  se reflete  seguramente na consciência   dos criminosos,  quer adolescentes, quer adultos.

Se  a  impunidade   continua   soberana  no alto da pirâmide, onde se agasalham   políticos corruptos,  na base  da pirâmide,  os vândalos,  os  marginais, de antemão sabem  que  serão presos   e logo  depois,  por imperativos da lei  que os protege, serão liberados para novos   crimes contra  indefesos  e inocentes.



 
Cunha e Silva Filho Views: 1595

Código do texto: 3f5219d43e9856e574852e59180ad567                  Enviado por: Cunha e Silva Filho em 29/06/2013

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Sobre o autor
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Rio de Janeiro, RJ, Brasil


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